Dramaturgia do Encontro - Dimir Viana
DRAMATURGIA DO ENCONTRO UM OLHAR SOBRE A DRAMATURGIA DO ENCONTRO Após um ano do encontro com a TERCEIRA MARGEM em Belo Horizonte em que fui convidado para falar sobre dramaturgia do encontro e a experiência com Linea Trasversale Dimir Viana* OS PASSOS E O INDIVÍDUO No ano de 1998, quando eu era ator do Teatro Proskenion de Scilla, no sul da Itália, recebemos um convite oficial do grupo CUATRO TABLAS de Lima no Peru, para participar do 9° Encontro Internacional de Teatro de Grupo na cidade de Ayacucho no interior do país sul-americano. Tal convite fora avalizado por Eugenio Barba, diretor do Odin Teatret da Dinamarca com quem o Teatro Proskenion colabora ainda hoje, organizando a Universidade de Teatro Eurasiano, importante evento dirigido por Barba com a participação do cast científico da International School of Theatre Antropology. No Peru o encontro foi coordenado por Mario Delgado e aconteceu com a presença de importantes nomes do tido teatro de grupo do mundo inteiro bem como mestres de renome. Participamos então, com um grande número de artistas integrantes de Linea Trasversale, aliança idealizada por Claudio La Camera em 1995. Tínhamos projetado então uma longa viagem na América do Sul. Tal projeto denominou-se "Em direção a Ayacucho". Daí marcamos o primeiro encontro de Linea Trasversale fora da Europa, o primeiro no Brasil organizado pelo TEATRO DOS MENINOS (hoje Teatro Albatroz), praticamente um grupo amador da pacata cidade de Pedro Leopoldo que eu tinha fundado em 1994. O tema do encontro foi: "Ethos e Sobrevivência" O encontro atípico de Linea reuniu, junto aos seus participantes vindos da Itália, um representante da aliança da Argentina EL SEPTIMO e integrantes do MTG Movimento de Teatro de Grupo de Minas Gerais. A meu ver, esta experiência que nasce da vontade sublime de promover encontros, foi o grande impulso para o surgimento da TERCEIRA MARGEM. Não creio que seja por acaso que o conto homônimo de Guimaraes Rosa deu origem à expressão Terceiro Teatro de Eugenio Barba, reverberando até hoje. Esta terceira via, como forma de agrupamento de pessoas e grupos, idealizado pelo ator Cristiano Pena, tem gerado na correnteza deste caudaloso teatro pretensões e moções artísticas numa sugestiva maneira de promover encontros para compartilhar experiências e colocar em confronto aquilo que pode dizer respeito à nossa profissão. Em março de 2005 fui convidado pela então estabelecida TERCEIRA MARGEM para falar a um grupo de atores e não atores sobre a temática de DRAMATURGIA DO ENCONTRO, expressão esta, que ouvi falar pela primeira vez através de Claudio La Camera, o próprio diretor e mentor de Linea Trasversale, a quem considero a maior referência para o tema na ocasião em voga. Passado um ano da minha presença em um evento da Terceira Margem, sinto que se completou um ciclo de repensamento sobre o que eu disse e sobre o que ouvi, no que se refere ao encontro em uma ação dramatúrgica. Percebi que passaram nove anos do primeiro encontro que tive com Linea Trasversale e praticamente dez anos do nascimento desta aliança em Bovalino no extremo sul da Itália. A SOLIDÃO COMO PATRIMÔNIO INVIOLÁVEL Desde que comecei a entender teatro, na minha mais notável insignificância, imediatamente, da minha parte já se instaurava uma espécie de rebeldia. Rebeldia que, de forma precoce, advinda de uma percepção de que o panorama teatral ao qual me ingressaria, já causava uma espécie de rejeição. O circuito tradicional do teatro profissional refletia uma espécie de território ocupado, delineado, na posse de alguns nomes e seus moldes. Os espaços teatrais da cidade me pareciam templos de uma ortodoxia que ostentava um teatro muitas vezes provinciano com focos de resistência de alguns grupos e artistas que iam construindo uma história que prevalecia na contradição. De fato sempre imaginei um teatro autônomo, um teatro de embates que pudesse ultrapassar a redoma protegida dos circuitos e das temporadas e dar vasão ao encontro. A uma verdadeira celebração com o sal e com o mel das coisas. Dei-me conta então que essa utopia não se funda na explosão intelectual daqueles que exploram o universo do "teatro de pesquisa". Tudo isso emerge da condição solitária de quem nutre sua própria, profunda e mísera poesia artística. "Quem são aqueles moços que agonizavam na mais deslocada ação teatral numa estrada vazia de pessoas em Bovalino? Que causava estranheza e violência nas ruas da Ilha de Malta sobre uma encruzilhada de idiomas e etnias, cuja unanimidade de comunicação tinha mesmo como laço o teatro de encontro. Quem são aqueles, aparentemente despretensiosos, nas ruas vazias recontando nas entrelinhas histórias do seqüestro dos Sete Anões, ou mesmo as sensações de Hamlet Sob Luzes Apagadas? Quem são aqueles que com sua inquietude desenham o espaço invisível da terceira margem de um rio?" Talvez qualquer resposta seja inútil por tudo que nas próprias perguntas se basta. O que mais importa em tudo isto é realmente o encontro. Nele autenticamos o aspecto da solidão como patrimônio inviolável dos descontentes. Mesmo que seja paradoxal o ato de ir contra, remando da foz à nascente, da origem à parceria para equilibrar a canoa, aquela que indubitavelmente é de papel. Depois de longos anos tive um espaço deliberado para falar aos meus aliados sobre aquilo que acredito muito. Na oportunidade recontei a minha trajetória como integrante de Linea Trasversale e o histórico dos encontros organizados em Pedro Leopoldo. Por mais que o contentamento de estar ali falando de dramaturgia do encontro me ganhasse em plenitude, seguramente não me bastava. Foi aí que lancei a proposta feita com ar de provocação: organizar encontros com aqueles participantes, indo ainda ao encontro de pessoas da nossa comunidade que vivem em uma situação de visível e inadmissível degradação social. Com muita clareza levei a situação dos usuários de crack que passam no relento e no sol dos dias a condição de tamanha incerteza humana, numa abrupta sinalização do que pode ser a falta de política pública que possa pelo menos reduzir danos àquelas pessoas. Aparentemente uma proposta que tenha abordagem assim tão corriqueira, talvez causasse espanto por ser vazia ou adesão por ser instigante. Talvez não movesse nada, ou seja, a sensibilidade ficaria no lugar em que já estava. É óbvio que este jogo provocativo é fundado na idéia de que a dramaturgia do encontro procede somente quando se vê uma unidade em perspectiva, das diferenças dos teatros com objetivos e posturas diversas, agindo conjuntamente, caso contrário, não seria encontro, no máximo uma reunião de camaradas. O resultado foi adesão e dissidência. A adesão caracteriza-se pela disponibilidade de concretizar uma ação. O verbo agir ganha relevância na práxis inerente ao fazer teatral e, no caso da minha proposta, queria promover a espetacularização sobre algo que fosse além do espectador, ou seja, algo que pudesse provocar atitudes dos organismos sócio, político e humanitário, nacionais e internacionais a fim de que se propiciasse a mínima atenção aos usuários de drogas da Avenida Antônio Carlos em Belo Horizonte, sendo levados pela força de um grupo de teatrantes numa estratégia denominada DRAMATURGIA DO ENCONTRO. Naquilo que tentamos ou que tenhamos resistido ou desistido, pude notar que aquele encontro com a Terceira Margem foi realmente revelador: alguns margeiam de um lado, outros margeiam do outro lado, mas não são todos os barcos que atingem a margem de numero 3, nem todos objetivam o 3, assim como de fato os da margem de lá desconhecem os da margem de cá, mesmo quando avistam um ao outro. No universo teatral pairam bem do nosso lado infindáveis aspectos. Assim como na vida, se nos afundamos na fina lama das margens, podemos num sufoco perder a passagem da canoa, afogados na explicação de que muitas coisas vão ao contrário do nosso teatro e que por sua vez, vamos ao desencontro da humanidade. Se olharmos para a recente história do teatro ocidental, teremos a sensação de que o século XX, na sua velocidade espetacular, deu saltos decisivos nos campos das ciências, da religião, da política e das artes. Veremos com muita propriedade a formatação dos princípios que regem o fazer teatral, mas devemos convir que tudo isso tem a idade de uma criança, por isso muitos dos nossos desejos também terão a face e a inocência das crianças. Nada neste nosso tempo é tão original, por mais que nos esforcemos a isto, aliás, a coragem de colocar à prova os nossos projetos teatrais dará vida ao que há de novo na nossa existência, na nossa cultura, adquirida da maneira que conseguimos. Faço um exemplo de construção no tempo: quando os fundadores da dança clássica ocidental deram partida para esta nova expressão artística, de certa forma abriram caminho para outras descobertas, inclusive lançaram luz a coisas que hoje ressaltariam ridículas. – Falo isto porque a dança clássica foi uma tradição construída sistematicamente. – O mesmo pode ocorrer no teatro contemporâneo. De maneira especial no "teatro de pesquisa", no teatro mais subterrâneo que temos notícia. Busca-se algo que corresponda a um desejo, a um sonho, sonho este que se instala como um castelo de areia que terá uma arquitetura pessoal, feita pela minhas, pelas suas e pelas mãos de outros sem necessariamente virar tradição. Daí a necessidade de frescor e muitas vezes de congeminar nos fazeres as nossas propostas. É com esse olhar que tenho a noção de uma terceira margem: lugar de encontro. Agrupamento. Cada qual leva a fruta da sua casa, o cereal de sua mesa, as flores do seu jardim ou a miséria talhada em pedaços. Cada um toma a sua fatia: ou repudia ou se nutre. Numa confraternização como essa o que não nos serve é a indiferença. Não está ainda ditado que na labuta do teatro não se possa sofrer o impulso de uma metaforização. Não é vaga a idéia de um grupo de teatrantes ilhados em meio a uma situação de miséria que ladeia a própria miséria do teatro. Qual a estratégia para anunciar além da ilha contornada por montanhas, aquilo que sensibiliza o mundo externo? Não se pode ter respostas nesse caso porque a mesma depende da ação. A provocação apresentada ilumina uma situação com sintomas nada positivos no que diz respeito à nossa tomada de posição no mundo das coisas concretas, no mundo que causa dor. Por mais que minha proposta tivesse ali um caráter pessoal, posso assegurar que a construção de uma dramaturgia de encontro naquele nível só proporcionaria êxito realmente numa construção com base coletiva. Mas o tempo, o cotidiano e as nossas individualidades roubam o procedimento. Bem por isso, antevejo uma grande crise da nossa profissão. Muitos artistas abandonarão esta arte. O teatro, mesmo que não finde, começa a entrar no jogo perverso dos mercantes. Já apareceram os mercenários e seus devidos monopólios enquanto precisamos de mecenas. Por isso, creio que seja no encontro das diferenças que se possa manter em resistência o tal teatro que acreditamos. A ilha passa a ser um continente inteiro. Lamentável será se o teatro reduzir-se a objeto de cientistas, pois o nosso ato empírico não pode se transformar em elemento de laboratório, ou mercadoria de produtores famigerados, latifundiários dessa terra herdada dos ditirambos, da força explosiva de SIVA. Mesmo aqueles que ardem por seus caprichos verão que o encontro é um alento para a inevitável solidão e que encontro, mesmo em conflito, só favorece ao nosso empenho e aos nossos sonhos, caso contrário admitamos tudo o que não mais se admite. Ilhados somos nós, mas ainda há fronteiras. FIM DE ENCONTRO A cada retorno dos poucos encontros com a Terceira Margem fui tomado de júbilo teatral. Meu coração virou menino. Vi neste agrupamento a resposta que Ítalo Calvino apresenta em uma fábula: não é a quantidade ou o fulgor das propostas que nos levam a realizar um sonho ou uma simples ação. Toda ação depende mesmo do primeiro impulso. Foi o que obtive ali – IMPULSO! Na fábula, Calvino fala de um sábio arquiteto chinês, que levou dez anos para entregar um lindo projeto a um imperador. Assim o fez, após os dez anos, usando um único risco num papel e conquistando assim, em pagamento, a riqueza para sua vida. O impulso da Terceira Margem me faz viajar com dois volumes de Victor Hugo, me fez munir de canetas e cadernos. E aqui continuo entrando em labirintos sondando a miséria, acreditando no amor, na fraternidade, ressaltando que o teatro é espaço de encontro e que é naturalmente uma arma para o avanço humano sobre aquilo que se acredita fugaz e que insistem em postular como efêmera: a vida. ESTE ARTIGO FOI FINALIZADO EM BOLONHA-ITÁLIA NO DIA 22 DE ABRIL DE 2006, DIA EM QUE SE RELEMBRA A DESCOBERTA DO BRASIL PELOS PORTUGUESES * Dimir Viana é Ator, Diretor fundador do Teatro Albatroz de Pedro Leopoldo, Integrante de Linea Trasversale foi ator do Teatro Proskenion – Itália entre os anos de 1995 a 2000 e é organizador do ENCONTRO INTERNACIONAL DE TEATRO com LINEA TRASVERSALE no Brasil.