Circo e Memória
Circo e Memória
Muitas são as imagens que povoam nosso universo de signos ligados a cultura brasileira. Eu, particularmente, sou mineiro. Dessas Minas Gerais tão interiores do interior do Brasil. Desde pequeno - desde muito jovem, uma vez que nunca deixarei de ser pequeno - me espanto com artistas que cravaram suas marcas indeléveis em minha memória.
Dos que mais me impressionaram foram sem dúvida alguma os palhaços de circo que eu ainda tive a oportunidade de ver aportar na pequenina cidade de Coronel Fabriciano, no coração do Vale do Aço. Me impressionava a capacidade que tinham de me surpreender com esguichos d’água gravatas fálicas que ficavam eretas de uma hora para outra, seus imensos sapatos e principalmente aquelas vozes potentes e risos que de uma certa maneira chegavam mesmo a me causar um certo terror. Entre uma e outra caravana circense as vezes passavam-se meses, na minha relação com o tempo, eu ainda era criança, pareciam décadas que se passavam. Mas aquilo me alimentava e me alimenta ainda hoje, do alto de minha adultice.
Muito bem. Com o advento da televisão o circo sumiu, ou quase. Mas o palhaço surgiu na telinha – ah Carequinha! Eu o via na tevê e algo em meu instinto dizia – curioso, como esse aparelho faz as coisas ficarem pequenas. Havia algo de mistério que desaparecia. Embora aquela forma atenuada de manifestação fosse prazerosa, artística, faltava o arrebatamento aterrorizante da presença física que o circo produzia. Do alto da arquibancada imensa, eu apertava meus olhos míopes para ver a arena. Quando repentinamente um gigante aparecia (a figura do palhaço). Somente agora eu dou conta dessa reflexão – era isso que eu sentia diante da tv. Embora eu visse de tão pertinho tudo ficava pequeno. Então, deixei de ver graça nos palhaços da televisão com aquelas roupas cheias de brilho e perucas de canudinhos plásticos de tomar refrigerantes, outra novidade no armazém da esquina. Bem cedo compreendi a capacidade da tv em pasteurizar as forças potencializadoras da vida; sua capacidade de diluir a força arrebatadora da Arte com seus mistérios e encantos, vividos naquela imensidão que era o circo. Isso era o final da década de 70. Fim da ditadura dos militares. Será que acabou? Ou foram as formas de poder que mudaram? Hoje, eu já fiz as pazes com a TV apesar de ainda me incomodar os palhaços dos programas de domingo. Ai que saudades do Chacrinha!
Bom, foi nessa época que eu entrei pela primeira vez num Teatro. Numa casa de espetáculos.
Como num passe de mágica eu fui transportado para aquele lugar dos sonhos, da loucura, do delírio que, quando criança, eu havia experimentado sob a lona de um circo. Foi maravilhoso esse reencontro. Todos os meus sentidos confluíram para um mesmo lugar numa experiência concreta com a totalidade do ser humano, com a verdade, com o terror e a glória. Quando eu compreendi que tudo é um e me diverti com meu pensamento. Aquela noite me salvou da segurança escravizante do alto-forno da usina siderúrgica e me lançou na insegurança libertária do devir teatral.
Passados muitos anos na perenidade de nossa humana condição, hoje eu me dedico ao teatro e ao estudo do palhaço. Essa personalidade, esse estado lúdico, que teima em me expor, em me lançar em becos sem saída, em aporias, situações ridículas, caminhos torpes e delicados, frágeis, por que não dizer tortos? Mineiro de corpo e alma barroco, retorcido me exponho.
Em sua aparente ingenuidade, se revela enquanto capacidade de compartir, de disposição para o compartilhamento; em sua tolice, capacidade e disposição para o jogo; em seus tropeços, nos revela nossa precariedade, nossa finitude, nossa fragilidade diante da vida, essa imensidão. Em um mundo que capota na próxima curva, onde as relações se desgastam no confronto entre o ter e o ser, numa época onde a ética da convivência se desgasta a tal ponto que só consigo pensar numa poética das relações como possibilidade de encontro com o outro, o palhaço é aquele que ama o público. Ama tão intensamente que destrói dia após noite uma parede imaginária que o Teatro ao longo dos anos teima em construir entre o ator e o público. A quarta parede, fria, gélida, pré-potente. Assim – e não apenas – ele, o palhaço, embora nos falte argumentos, é um merecedor de atenção daqueles que pesquisam uma teatralidade na cultura brasileira, pois, ele pode ser bobo – e certamente o é – mas nada, é mais humano que a própria bobeira.